quinta-feira, 16 de março de 2017

A foto encontrada

Paris,
Bon Soir, Paris.

Tem tempo, mas ainda vale: o tempo urge, a caravana passa, e o ensinamento fica.
Estava eu, caro leitor, a prestar auxílio ao meu então companheiro. Homem é bicho desorientado e precisa de muito apoio em tarefas simples. Houve esse momento, confesso, de sugerir uma urgente faxina do quartinho dos fundos.
Conclui-se que tem homem para tudo mesmo neste mundo. E mulher também. Até para faxinar quartinho em domingão de sossego.
Missão é missão, aprumei o corpo, e lá fui eu.o
Limpa daqui, paninhos com álcool, varre dali, separa, empacota, joga fora. O ambiente aumentando.
Afasta o móvel. Esse aí pesadão. Ajuda, ajudo. Empurra.
Surge a foto.
Resgato-a com cuidado. Ergo-a contra a luz com uma curiosidade quase cientifica, claro.
Uma foto. Um pedaço de papel. Coberto por uma camada grossa de um misto de mofo e poeira. Esteve encurralada por uma pesada estante, a pobrezinha.  Sobrevivente.
Com a ponta dos dedos limpo a superfície.
Vejo a Torre Eiffel e uma moça sorrindo em primeiro plano. Não é bonita nem feia. Nem magra nem gorda. Meia idade. Não ouso checar o verso. Medo de palavras escritas, pavor.
" - Quem é? "
" - Minha ex. "
Viro a foto. Leio as temidas palavrinhas. Estranho o som de minha voz, pareceu-me estridente e infantil.
" - Fulano querido, estou encantada com este lugar mágico. Uma pena que você não veio. Temos o mundo para conhecer, e começar por Paris é uma ótima idéia. Te amo. Beijo, Fulana."
Indiferente ele estava, indiferente continuou. Fazia-se de surdo.  Perguntei,  atônita,  você não quis ir?
Recebi então a pior resposta que um ser humano adulto,  instruído, e com dinheiro no banco pode dar: " - Não tenho nada para fazer em Paris. Muito menos com essa louca ".
Alto lá. Infringido Código de Etica do Sindicato das Ex. Só uma mulher fala mal de outra mulher.  Homem não. Homem agradece a divina oportunidade da convivência e segue adiante, em silêncio e respeito.
"- Como assim, louca?!"
" - Sim. Louca. Depressiva. Insuportável" Pode jogar fora, se quiser".
Calei-me e olhei a foto. Vi uma mulher dona de si, que embarcou sozinha para Paris, curtindo Paris, e dando-se ao trabalho de mandar uma foto. Seu texto sugere, elegantemente, um sonho a dois de sair pelo mundo.
Olhei para ele. Vi que não sonhou. Vi que não sonhava.  Um homem que sequer se surpreendeu, nem uma arregalada de olho, um sustinho, nada, diante de uma foto antiga da ex,  que viveu com ele por quatro ou cinco anos; a ela referiu-se sem carinho, sem mágoa, unicamente com reprovação. Um homem desorganizado e ausente, que deixou um quarto ficar no estado caótico que estava aquele. Poderia ter um cadáver lá dentro, não teria percebido.
Na verdade, o quartinho continha quase um cadáver. Estava lá sua lápide para marcar o local. Uma parisiense lápide, em ignorada homenagem a alguém que morrera e ele enterrara atrás da estante. E o turrão, que não tinha nada para fazer em Paris, não choraria seus mortos.  Jamais.
Percebi, com tristeza e intuição, que um dia eu estaria daquele jeito, tal qual minha antecessora estava naquela foto. Em Paris? Não. Esquecida num quartinho dos fundos, atrás de um móvel velho, claustrofóbica, sufocada pela poeira do tempo. Que poderia ser jogada fora. Uma mulher que não causaria mais nenhuma emoção.
Que triste.
Uma pessoa que teria seus sonhos sozinha, que os viveria sozinha, e de vez em quando o ajudaria no serviço pesado da casa e em menores empreitadas.
Louca e depressiva, eu terminaria talvez escrevendo palavras sem importância,  falando de um amor sem importância, de uma viagem por um mundo que para ele não teria importância. De uma Paris sem importância.
Muito triste, limpei a foto e guardei-a numa pasta,  com alguns documentos de validade vencida. Aquela era a foto de um papel vencido, que não o identificava mais. Melhor guardar junto aos seus colegas de turma, para que lhe atenuassem o frio destino.
Olhei ao redor, ele prosseguia sua limpeza exterior, na posição defensiva dos muito ocupados, e eu me vi só.
Paris, queridos,  nunca esteve tão distante de mim quanto naquele momento. Tão inatingível. A Paris vibrante da alegria de amar e de se aventurar, e de sorrir para Torre Eiffel e Rio Sena. Caminhar.  A Paris cidade luz que acende uma nova vida, gigantesca e exuberante. Um tesouro de cultura e bom gosto.
E eu tive certeza que tenho muita muita muita coisa para fazer nesta vida.
Muita coisa para fazer em Paris.
Muito sonho para sonhar.
Percebi-me em trânsito.
Comecei ali, algo tristonha e algo esperançosa, a preparar minha solitária partida.
Au revoir, mon chér



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