quinta-feira, 16 de junho de 2011

A oportunidade

Gávea,
Sábado,
Rio, frio.

Entrada Principal Shopping, onde tudo aconteceu

Desço apressada do táxi com meu pequeno. Ansioso ele, ansiosa eu.
Estávamos em cima da hora para o teatrinho, os dois alegres e apressados. Bem agasalhados em moletons, botas, jaquetas.

Em frente ao Shopping, um pipoqueiro. Que cheiro! Vamos, é rapidinho, duas moedinhas. Capriche aí por favor, ótimo, obrigada.

Parto em retomada à rota do teatro.

Um menino aproxima-se, quieto, e olha para mim. Achei que pediria à tia para comprar uma pipoca para ele. Não. Sua figura contrasta absurdamente com a minha e de meu filhote. Estamos limpos, cheirosos, gorduchos. Estamos com roupas de frio, confortáveis. E vamos ao teatro.

Ele me olha nos olhos.

- Tia, me dá um dinheirinho para eu comprar uma blusa.

O frio é de lascar. O menino, magrinho, de idade indefinida, pode ter 10 ou 14, em short e camiseta. Chinelos, os pés secos e empoeirados. Uma mochila cheia nas costas, meio rasgada. Seu rosto é bonito, usa um brinco, e o cabelo cortado assim com desenhos à máquina. Pensei: ele tem sua vaidade.

Somei o dinheiro do táxi e da pipoca. Engasguei. Deve ser mais do que tem para comer um dia inteirinho. Só penso em saciar-me, confortos e gulodices.

Pensei em todas as roupas de frio que tenho em casa, novas e velhas, que náo cabem em meus filhos ou em mim, e que poderiam servir-lhe. Plano: eu ligo para casa, alguém entrega ao porteiro, ele pega com o porteiro. Timing perfeito, cada um na sua funçao, a encomenda chegará ao destino, e eu cumpro minha programaçao deste sábado.

- Escute, eu tenho uma porçao de casacos para você, quer buscar?
- Onde é, tia, é longe?
- Náo, eu te explico onde é. Você sabe onde fica o ponto final do 455?
- Sei náo, tia
- Você sabe onde fica a Galeria River, perto do Arpoador?
- Sei náo, tia.
- Sabe onde é a rua Raul Pompéia?
- Pôxa, náo sei náo.
- Você está com quem?
- Com minha prima, já é grande ela já.
- Será que ela sabe?
- Ela está lá cuidando da bebê dela, náo sei se ela sabe náo.

Vi que a coisa náo avançava por aí, hora do Patinho Feio entrar no palco, e mudei de idéia.
O frio aumentando.

- Bem, façamos o seguinte: amanhá te trago a roupa.

O menino baixou os olhos.

- Tia, é que eu preciso para mim é que meus irmãos também tão sem blusa.

Morri.

- Bem, vamos pensar em outra coisa,né?
Olha, eu vou demorar uma horinha no máximo. Fique por aqui, quando eu sair, você vai comigo.
- Tá bom entáo, tia, entáo vou ficar por aqui e vejo a senhora sair por ali, então.

Eu mandei o menino passar mais uma hora de frio. Sessenta minutos ao sereno, uma criança sem proteçao alguma.

Entro já arrependida. Meu Deus, e agora, como levarei este menino comigo? Eu tinha a intençao de voltar de taxi, tenho outro compromisso, mas náo posso colocar um menor, aparentemente um menor desassistido, de rua, no táxi comigo. Pode dizer que o forcei a ir, pode gritar, pode tudo.

Bem, iremos de ônibus, é mais seguro. Vou me enrolar com o horário mas darei um jeito. Ok. Lindo teatrinho, Patinho para lá, Patinho para cá, Cisne no fim, saímos. Eu já saio buscando o menino com os olhos. Meu pequeno o vê antes de mim.
Está no meio de uma turma onde é o menor deles, e o mais desnudo. Seus companheiros parecem mais velhos, mais magros, mais secos e empoeirados. Está lá a tal prima, uma mulher feita, com o bebê inquieto em seu colo. Papelóes e jornais no cháo. Garotos em camisas esgarçadas e os braços cruzados por baixo, aproveitando o pouco tecido para aquecerem-se mais, e com isso escondendo suas mãos. Tive vontade de tirá-lo dali, deste bando, desta corja, mas não fui em sua direçao. Fuji. Tive medo.

Tive medo de me aproximar. Escurecendo, esfriando, ele precisa de casacos e eu me afasto. Temo. Temo que venha comigo e que outros venham junto. Ele precisa de casacos, tenho os casacos e me afasto. Temo que me assaltem, temo que aprendam o caminho da minha casa.
Eu me afasto. Agarro a máo de Pedrinho e me afasto.

Sei que sentirá frio, que pode adoecer, mas me afasto. Tão fria quando o termômetro, pensei, unicamente, em mim. Rapidamente me enfio em um táxi, agora também com medo de ter sido vista.

Penso no menino que precisa de tudo neste mundo e tem por companhia quem nada pode dar-lhe, a não ser maus conselhos.

Penso no menino que passou frio aquela noite por causa do meu medo, e dos meus compromissos inadiáveis, e minhas correrias sem fim. Eu, que só penso em mim, que tenho casacos sobrando, e náo quero perder nada, nem o teatro, nem o evento, nem a pseudo segurança.

Deixei o menino com frio. Pode ter adoecido. Afastei-me. Náo sou diferente, em nada, dele, tenho carne, osso, frio, fome, mas virei as costas e parti. Como os deputados, como os senadores, como os políticos, como a polícia, como os juízes. Como os bispos em seus palácios. Como todos que eu critico, eu só pensei em mim.

Não era adequado, náo era conveniente, náo dava tempo. Era arriscado. Sigo para minha vida, e o menino que me olhou nos olhos fica para trás, desprotegido, indefeso, pedindo ajuda a quem náo quer ajudar.

Perdi uma grande oportunidade de fazer diferente.

Eu, que tanto gosto da irreverência, do atrevimento, do pioneirismo. Fiz como os burgueses preconceituosos e como os acadêmicos, como os indiferentes tecnocratas. Fiz como os soldadinhos de chumbo, todos iguais, que marcham na mesma direçao.

Perdi a oportunidade de aquecer uma criança em uma noite fria.

Que Deus me dê outra chance, e que Deus me perdoe, porque eu já não consigo.

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